Da coluna de Dora Kramer de ontem n'O Estado de São Paulo.
NB: Outro neologismo meu, boquipasmo, auto definível. Mas reparem, Dora Kramer usa o termo "boquiabrir" provavelmente derivado da mesma raiz que a minha palavra inventada. Nosso "quaserrei" é bárbaro, literalmente.
"Elogio ao escapismo
Só não é possível se conformar que autoridades públicas se limitem a constatar obviedades e depois mudem de assunto sem se sentirem minimamente na obrigação de dizer como e quando pretendem cumprir o dever constitucional de zelar pela segurança do cidadão.
Muito menos é possível aceitar que fujam de suas responsabilidades com discursos de puro escapismo à falta de elementos para estabelecer um diálogo sério com a sociedade, em particular com aqueles que vivem em áreas conflagradas sob ameaça diária da ação do banditismo e do desnorteio do Estado.
O uso do plural justifica-se porque tal conduta não é apenas do atual presidente, mas é ele o responsável no momento.
De alguém há sete anos no comando da Nação é de boquiabrir escutar que "a presença do narcotráfico tirou o romantismo das favelas cariocas, locais sempre citados por sua ligação com o samba".
Em que mundo vive o presidente da República, cujo maior atributo é sua comprovada identificação popular, sua proclamada capacidade de compreender as aflições dos desvalidos?
"Hoje, o narcotráfico é uma realidade e, com ele, não tem poema", acrescentou, parecendo não compreender que tal conceituação poética há muito deixou de fazer parte daquele cotidiano.
Evidentemente o presidente Lula sabe disso. O que não sabe é o que dizer e o que fazer diante disso. Por isso, diz o que lhe vem à cabeça e que lhe pareça mais apropriado para falar sem se comprometer com uma questão em tudo e por tudo pertencente à sua alçada, atinente à sua condição de condutor dos processos de mudanças aos quais, diga-se, prometeu fazer frente na campanha eleitoral e depois repetiu nos discursos das duas posses.
É bem verdade que, em ambas as ocasiões, passou quase ao largo do tema para quem sucedia um governo que havia fracassado assumida e fragorosamente no atendimento a uma das maiores angústias dos brasileiros.
Disse Lula em janeiro de 2003: "Crimes hediondos, massacres e linchamentos crisparam o País e fizeram do cotidiano, sobretudo nas grandes cidades, uma experiência próxima da guerra de todos contra todos. Por isso, inicio este mandato com a firme decisão de colocar o governo federal em parceria com os Estados, a serviço de uma política de segurança pública muito mais vigorosa e eficiente."
Disse Lula em janeiro de 2007: "Sinto que, em matéria de segurança pública - um verdadeiro flagelo nacional - crescem as condições para uma efetiva colaboração entre a União e os Estados da Federação, sem a qual será muito difícil resolver esse crucial problema."
E, sobre isso, das frases de efeito não passou, a despeito das inúmeras vezes em que celebrou o trabalho da Polícia Federal no combate ao "crime organizado" para fins de autoexaltação."
PS (meu): Boquipasmo eu uso assim mesmo, boquipasmo, quando fico de boca aberta e sem palavras, Aurélio e Houaiss, se cuidem, esse é um jacquismo de alguns anos.
Já que a língua é uma entidade aberta, porque não?
Um comentário:
Ah! a política...com "p" minúsculo, sim. Eu tive uma ínfima amostra do que é o "puder", e te digo, amigo: o poder tem muita força, ele pode corromper a maioria das pessoas. Há que ter muita formação, muita fibra, muita certeza da punição que certamente virá, para não aderir à maioria, à banda podre. Agora, tem gente que finge tão completamente, que vai ver acredita no que fala! Vai ver o homem acha que está no fazendo um bem imenso...
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